Andava com a vida ocupada.
Transbordando de mim e de ser eu e não tinha espaço pra mais ninguem.
Nunca tinha sido tão feliz em toda minha vida.
Um dia, eu me bastava.
Um dia aconteceu de todas as escolhas serem minhas, de todos os acertos e erros serem meus. Do meus pés irem onde bem quisessem, chegarem, partirem ou bailarem no meu ritmo, no meu compasso, no meu tempo.
A liberdade de ser o que for e ser tudo.
E ser minha. Só minha.
Coração aquietado, tranquilo, desfrutando do mundo e se entregando a ele, livre.
Inebriado dessa liberdade, dessa paz de não perder noite de sono a não ser pra aproveitar o melhor da festa.
Leve.
Feito pluma no vento. Feito revoada de passarinho. Feito balão de gás.
E de repente a semana vira esperar a sexta-feira, e querer que o fim de semana não acabe. O estômago se enche de borboletas e o corpo inteiro deseja mais um abraço. As horas de conversas intermináveis fazem nascer uma vontade de não ir embora.
O coração não mais admite que em seu terreno fértil vai brotando um sentimento.
Não quer saber de criar raízes, não quer mais se dividir. Aprendeu a amar as asas que criou e a liberdade de ser inteiro. Logo ele, tão carente e tão sentimental, agora anda arredio, nega, se esconde, tem medo de não saber se sustentar, de se perder de novo de sua tão querida identidade.
Pego de surpresa, já não sabe o que fazer com um sentimento que insiste, contra todas as possibilidades, em se instalar no peito.

